Especial Vindouro 2026

Selores | O Douro de uma pequena família que escolheu fazer vinho

Durante mais de 15 anos, Frederico Selores trabalhou com computadores no município de Gaia. A vinha fazia parte da história da família, mas não era o seu caminho profissional. Até que o Douro lhe colocou uma escolha pela frente, continuar na engenharia informática ou regressar às origens e dedicar-se a um projeto familiar de vinho.

A decisão surgiu num momento particularmente difícil para a região. Em 2008 e 2009, havia quem pagasse apenas dez cêntimos por quilo de uva e, numa conversa entre Frederico, o irmão e os pais, nasceu a ideia de avançar para uma pequena adega e começar a produzir vinho DOC Douro. O primeiro vinho da Quinta dos Selores chegou ao público em 2013, produzido em 2011.

Começaram com cerca de dez mil garrafas e foram crescendo de forma gradual. Já chegaram às 60 mil num ano e, em 2025, produziram cerca de 45 mil. Poderiam chegar às 100 mil, mas Frederico não vê esse número como um objetivo. “É um projeto familiar e pequeno. O objetivo é que se mantenha assim, mas aumentar o patamar qualitativo à medida que as vinhas vão amadurecendo”.

Durante algum tempo, acumulou a atividade profissional com o projeto vitivinícola, até ter de escolher. Hoje dedica-se à Quinta dos Selores a tempo inteiro. “Foi um desafio ao qual nos lançamos, eu e a minha família”, recorda.

Um “milagre” que ficou na garrafa

A marca tem atualmente oito referências. Quatro pertencem à gama Milagre (branco, tinto, rosé e tinto Reserva), e outras quatro à gama Selores, já no patamar Reserva (branco, tinto, rosé e o Premium).

O nome Milagre nasceu durante uma vindima em que tudo parecia correr mal. Frederico comentou com o enólogo que, se daquele ano saísse um bom vinho, “seria um milagre”. O vinho correu bem e o nome ficou.

No topo da gama está o Selores Premium, produzido apenas em anos excecionais, em edições numeradas. A maior produção rondou as 4800 garrafas.

As vinhas mais jovens têm atualmente dez ou 15 anos e a expectativa é que ganhem qualidade com o tempo. Novas plantações permitiram ainda que a empresa deixasse de depender da compra pontual de uvas, sobretudo brancas. Hoje, a produção própria já é suficiente para os objetivos definidos. “O que as uvas dão, vai para a garrafa”, afirma.

Vinhos com o sotaque do Douro

O calor e a exposição das vinhas contribuem para uma concentração elevada de açúcar e para vinhos de graduação naturalmente alta, uma característica que o produtor não procura contrariar.

“Se na vindima eles dão 14 ou 15 graus, é assim que chegam à garrafa”. O grau mais baixo conseguido foi de 13,5 nos tintos e 12,5 nos brancos. Um dos vinhos mais premiados da casa atingiu os 16,5 graus.

Frederico gosta de vinhos com estrutura e corpo, mas sobretudo de vinhos que expressem o território. “Os nossos vinhos são muito específicos da região, refletem bem o terroir onde estão as vinhas”.

Essa identidade começa também a viajar para fora do Douro. A Suíça é atualmente o principal mercado de exportação, seguindo-se Luxemburgo, França, Alemanha e Canadá. Espanha e Brasil estão em negociação. São ainda quantidades pequenas, mas importantes para uma empresa familiar.

O problema continua a estar na vinha

Por detrás dos vinhos está uma preocupação maior, a dificuldade de tornar economicamente sustentável a produção de uva no Douro.

Frederico estima que “mais de 80% dos vinhos produzidos na região” sejam vendidos a preços demasiado baixos para remunerar verdadeiramente o trabalho da vinha. “E o problema pode ser ainda mais grave para os pequenos viticultores, que mantêm explorações familiares sem conseguirem retirar delas rendimento suficiente. Enquanto não conseguirmos valorizar as uvas não conseguiremos valorizar o setor”, defende.

O risco é também geracional. “Aquele produtor que tem uma pequena vinha que trata ao fim de semana e sobre a qual não faz contas tem tendência a desaparecer. Quando deixar de trabalhar, os seus filhos ou netos certamente não irão continuar a granjear porque não é rentável”.

Frederico defende, por isso, a possibilidade de um arranque voluntário de vinha como forma de equilibrar a produção e ajudar a recuperar o valor da uva. Dá ainda um exemplo das dificuldades do setor, “produzir uma pipa pode custar entre 400 e 500 euros, enquanto há vinho no mercado que concorre com preços de compra de 150 ou 200 euros. É muito difícil”.

Os próprios embaixadores

A valorização do vinho passa também, na sua opinião, pela forma como o próprio Douro se apresenta. Frederico entende que a região tem de ser o seu maior embaixador e critica a utilização de vinhos sem certificação em determinados eventos.

“Nós temos de ser os nossos maiores embaixadores. Não podemos ter eventos, muito menos oficiais, onde são servidos vinhos sem certificação”, afirma. “É uma facada que damos em nós próprios”.

Apesar das dificuldades, a família Selores continua a apostar no projeto. Não há uma corrida para aumentar a produção a qualquer preço. Há novas vinhas, maior autonomia na produção de uva e uma gama progressivamente mais exigente.

A história da Quinta dos Selores é, afinal, a história de uma escolha. Num momento em que vender uva oferecia poucas respostas para o futuro, uma família de São João da Pesqueira decidiu ficar mais perto do vinho e transformar a própria matéria-prima.

Frederico, engenheiro informático de formação, trocou os computadores pela vinha e pela adega. A pequena empresa que começou com dez mil garrafas já leva os seus vinhos para vários mercados internacionais, mas continua a querer ser pequena.

Porque, no Douro, crescer nem sempre significa produzir mais. Às vezes significa conseguir que uma vinha envelheça, que uma garrafa conte melhor a história do lugar onde nasceu e que uma família consiga continuar a viver da terra.

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