Durante décadas, o interior europeu foi retratado como um território de partida. A imagem repetiu-se geração após geração: os jovens cresciam nas aldeias e pequenas cidades, mas acabavam por procurar o seu futuro nos grandes centros urbanos. A desertificação humana parecia inevitável e o êxodo rural era encarado como uma consequência natural da modernização.
Contudo, um novo estudo promovido pelo Conselho da Europa e pela Parceria Juventude União Europeia–Conselho da Europa vem desafiar essa narrativa. A investigação, realizada entre 2019 e 2023 em 14 países europeus, revela que muitos jovens rurais não querem abandonar os territórios onde cresceram. Pelo contrário, a maioria dos participantes manifestou a intenção de permanecer nas suas comunidades ou regressar após períodos de estudo e trabalho noutras regiões.
Os resultados apresentam uma geração que continua a enfrentar obstáculos relacionados com o emprego, os serviços públicos, a mobilidade e a participação política, mas que mantém uma forte ligação às suas raízes e uma vontade clara de contribuir para o desenvolvimento dos territórios rurais.
No interior de Portugal, mais concretamente na região do Douro, esta realidade encontra eco nas histórias de Margarida de Castro, Fanny Dos Santos e Pedro Alves. Três percursos distintos que convergem numa mesma convicção: é possível construir um futuro fora dos grandes centros urbanos.
Uma juventude frequentemente esquecida pelas políticas públicas
Uma das principais conclusões da investigação europeia é a ausência de políticas especificamente direcionadas para os jovens rurais. Na maioria dos países analisados, este grupo não é reconhecido como uma categoria própria nas estratégias governamentais. As suas necessidades acabam frequentemente integradas em políticas gerais de juventude ou de desenvolvimento regional, sem respostas adaptadas às especificidades do interior.
A consequência é que muitos jovens continuam a enfrentar dificuldades particulares no acesso ao emprego, à habitação, aos transportes, à educação ou aos serviços de saúde.
Para Margarida de Castro, natural da Guarda e residente em Vila Nova de Foz Côa, a falta de investimento continua a ser uma das principais fragilidades dos territórios do interior.
"Sem dúvida. O nosso interior está a ficar deserto e cabe também ao governo criar medidas para que este território não seja esquecido. Que torne mais apetecível viver aqui", afirma.
Entre as medidas que considera prioritárias estão os “apoios à criação de negócios e ao setor agrícola”.
Também Pedro Alves, natural de Vila Real e residente em Peso da Régua, entende que as políticas existentes continuam a ser insuficientes.
"Há políticas públicas que incentivam a vir para o interior, mas nunca é premiada a permanência neste território, o que está errado e deveria ser alterado", defende.
Uma opinião partilhada por Fanny Dos Santos. Nascida em Fribourg, na Suíça, escolheu Numão, no concelho de Vila Nova de Foz Côa, onde tem raízes, para construir a sua vida.
"Penso que ainda há margem para melhorar. Existem alguns apoios, mas é importante reforçar medidas relacionadas com o emprego qualificado, a habitação acessível, os transportes e o acesso a serviços. Muitos jovens gostariam de viver no interior, mas precisam de sentir que terão oportunidades de crescimento profissional e condições para construir o seu futuro."
O relatório europeu conclui precisamente que muitas das medidas adotadas nos últimos anos resultaram de programas mais abrangentes, como o Mecanismo de Recuperação e Resiliência ou a Garantia Jovem Reforçada, sem uma atenção específica às realidades rurais.
Educação: qualificação sem cortar raízes
Contrariando alguns estereótipos associados ao meio rural, os investigadores verificaram um aumento significativo dos níveis de qualificação entre os jovens rurais europeus. O número de jovens com formação superior cresceu nos últimos anos e muitos dos participantes no estudo encontram-se a frequentar ou pretendem frequentar o ensino superior.
A educação surge, cada vez mais, como uma ferramenta de valorização do território e não necessariamente como uma porta de saída definitiva.
O estudo mostra que as novas gerações procuram qualificar-se, adquirir competências e ganhar experiências fora das suas regiões, mas mantêm uma forte ligação às comunidades de origem. Essa realidade é visível na história de Margarida.
"Crescer no interior, com calma, com tempo para explorar a natureza e o que ela nos dá, para brincar ao ar livre, sem medo de andar na rua, sempre me fez acreditar que nós temos sorte em podermos desfrutar de uma vida com qualidade."
A experiência de viver em Lisboa permitiu-lhe comparar diferentes estilos de vida. "Sempre acreditei no potencial do interior. Depois de viver em Lisboa, na vida corrida e agitada da cidade, regressar ao interior foi a escolha mais acertada para mim."
Hoje dedica-se à promoção do Douro através de um projeto próprio.
"Tive a oportunidade de criar um projeto onde mostro a beleza do nosso Douro e onde mostro as vantagens de viver neste belíssimo território."
Os investigadores defendem que esta tendência deve ser acompanhada por um reforço da oferta formativa nas regiões rurais, incluindo ensino profissional e técnico adaptado às características económicas locais. Recomendam também uma maior participação dos jovens rurais em programas europeus de mobilidade, como o Erasmus+, para garantir igualdade de oportunidades.
O papel invisível das redes de apoio
Se existe uma conclusão transversal a todo o estudo, é a importância das redes de apoio informais. Amigos, familiares, vizinhos e membros da comunidade desempenham um papel decisivo na transição para a vida adulta.
Ao contrário da ideia de que estas redes podem reforçar desigualdades, os investigadores concluem que funcionam frequentemente como fatores de proteção e promoção do bem-estar. Em muitos casos, compensam limitações dos serviços institucionais e ajudam os jovens a encontrar emprego, apoio emocional ou oportunidades de desenvolvimento.
É precisamente essa dimensão comunitária que os entrevistados mais valorizam.
"Temos a natureza aos nossos pés, podemos plantar, criar, nadar, sentir", descreve Margarida. "A proximidade que existe entre as pessoas que vivem aqui, a comunidade local, a preocupação que existe uns com os outros."
A jovem destaca ainda a possibilidade de crescer e constituir família num ambiente mais seguro e próximo da natureza.
"Podemos criar uma família, deixar as crianças brincar na rua, na terra, na água."
Fanny encontra vantagens semelhantes.
"A principal vantagem é a qualidade de vida. Existe menos stress, maior proximidade com a natureza, custos de vida mais reduzidos e uma maior sensação de comunidade."
As relações de proximidade continuam a marcar a vida quotidiana. "As relações humanas tendem a ser mais próximas e existe um forte espírito de entreajuda entre as pessoas."
Para Pedro Alves, esse sentimento de pertença também pesa na decisão de permanecer.
"Sou a pessoa que sou graças ao interior, e quero muito desenvolver este território para tentar pagar o que estou em dívida."
O relatório recomenda, por isso, um maior investimento na chamada "infraestrutura social" das comunidades rurais, reforçando mecanismos que promovam a coesão local e a solidariedade entre gerações.
Emprego: oportunidades existem, mas continuam a faltar condições
Apesar de muitos jovens rurais estarem empregados ou a estudar, a investigação identifica fragilidades importantes no mercado de trabalho.
Muitos dos participantes consideram que os empregos disponíveis não oferecem condições suficientemente atrativas nem perspetivas de progressão profissional. O acesso ao emprego continua frequentemente dependente da proximidade geográfica, da posse de automóvel e dos contactos pessoais.
O relatório conclui mesmo que, em muitos casos, as redes informais revelam-se mais eficazes na procura de trabalho do que os próprios serviços públicos de emprego.
Fanny reconhece algumas dessas dificuldades. "As maiores dificuldades estão relacionadas com a menor oferta de emprego em algumas áreas, a distância de certos serviços especializados e a escassez de transportes públicos."
Pedro aponta outras limitações. "A pouca oferta cultural e desportiva" continua a ser uma das principais desvantagens de viver no interior.
Ainda assim, nenhum dos entrevistados encara essas dificuldades como motivo suficiente para abandonar o território.
No caso de Pedro, a ligação profissional ao Douro é um fator importante. O seu principal negócio está ligado ao setor vitivinícola.
"O meu negócio principal está sediado aqui, no vinho. A qualidade de vida é excelente, a proximidade de tudo e sempre que preciso de algo em falta, usualmente oferta cultural, estou a pouco mais de uma hora do Porto."
O estudo sublinha precisamente a necessidade de criar empregos de qualidade e oportunidades de empreendedorismo capazes de responder às expectativas das novas gerações e contribuir para o desenvolvimento sustentável dos territórios.
Ficar é uma escolha
Talvez a descoberta mais relevante da investigação seja a desconstrução de uma ideia há muito enraizada: a de que todos os jovens rurais desejam partir.
A maioria dos participantes afirmou querer continuar a viver na sua comunidade ou regressar depois de experiências de estudo e trabalho noutras regiões.
Os investigadores observaram também uma transformação nos padrões de mobilidade. Em vez das migrações definitivas que marcaram gerações anteriores, tornam-se cada vez mais frequentes os movimentos temporários ou pendulares entre territórios rurais e urbanos.
A saída deixa de representar uma rutura permanente e passa a ser, muitas vezes, uma etapa de aprendizagem.
Para Margarida, a decisão de permanecer está ligada à qualidade de vida e ao futuro da sua família. "Quero dar a mesma qualidade de vida aos meus futuros filhos."
A jovem acredita que o interior oferece algo cada vez mais raro. "A qualidade de vida para mim é o primeiro argumento. Temos tempo para viver."
Fanny também considera que o interior pode ser um espaço de oportunidades.
"Diria que o interior oferece uma excelente qualidade de vida, maior tranquilidade e a possibilidade de criar uma ligação mais próxima com a comunidade." E acrescenta: "É um lugar onde ainda existe espaço para empreender, inovar e fazer a diferença."
Pedro resume os seus argumentos de forma simples: "A calma, a serenidade, o custo de vida e a proximidade entre pessoas."
São precisamente estes fatores que o estudo identifica como decisivos para a permanência dos jovens: a ligação à comunidade, o contacto com a natureza, os custos de vida mais baixos e um forte sentimento de pertença.
Participação cívica continua reduzida, mas há sinais positivos
Embora os jovens rurais demonstrem uma forte ligação ao território, a participação formal em associações, partidos políticos ou organizações cívicas continua a ser reduzida em muitos países europeus.
Esta realidade preocupa os investigadores, que alertam para o risco de os interesses das novas gerações ficarem sub-representados nos processos de decisão.
Ainda assim, os testemunhos recolhidos mostram que existem exemplos de envolvimento ativo.
Margarida participa numa associação local criada para dinamizar o bairro onde vive. "A ideia é sermos um bairro unido, que preserva as tradições locais e que acima de tudo não se esquece da comunidade local."
Fanny desempenha um papel ativo na organização das festas da sua terra enquanto mordoma e integra a lista do atual presidente da Junta de Freguesia de Numão. "Esta participação surgiu da vontade de contribuir para a preservação das tradições locais e para o fortalecimento da união da comunidade."
Já Pedro participa na Iniciativa Liberal em Vila Real. "Identifiquei-me com o projeto político, a sua importância e a possibilidade de ajudar a dinamizar o interior."
O relatório recomenda a criação de mecanismos mais participativos e inclusivos, capazes de aproximar os jovens das instituições e de lhes dar um papel mais ativo na definição das estratégias de desenvolvimento local.
Uma oportunidade para contrariar a desertificação
Os resultados do estudo surgem numa altura particularmente relevante para a Europa. Muitas regiões rurais enfrentam problemas de envelhecimento demográfico, perda de população, encerramento de serviços públicos e dificuldades em atrair investimento.
Durante anos, estas tendências alimentaram a ideia de que o declínio dos territórios rurais seria inevitável. No entanto, a investigação sugere que existe uma oportunidade frequentemente negligenciada.
Os jovens querem fazer parte da solução. A sua crescente qualificação académica, o domínio das ferramentas digitais e a capacidade de conciliar inovação com conhecimento local são apontados pelos investigadores como recursos fundamentais para revitalizar os territórios rurais.
Por isso, defendem uma mudança de paradigma. Em vez de serem vistos apenas como beneficiários das políticas públicas, os jovens devem ser reconhecidos como protagonistas do desenvolvimento local.
O futuro das zonas rurais passa pelos jovens
O reconhecimento desta realidade começou já a refletir-se nas instituições europeias. Em maio de 2025, o Conselho da Europa aprovou uma recomendação sobre a participação social, económica e política da juventude rural, apelando aos Estados-membros para que criem condições que permitam aos jovens permanecer e prosperar nos territórios onde vivem.
As histórias de Margarida, Fanny e Pedro mostram que existe uma geração disposta a aceitar esse desafio. São jovens que valorizam a proximidade, a comunidade e a qualidade de vida, mas que também exigem oportunidades, investimento e perspetivas de futuro.
Os dados do estudo apontam todos na mesma direção: os jovens rurais não estão condenados a partir. Muitos querem ficar, empreender, criar família, participar na vida das suas comunidades e contribuir para o desenvolvimento dos territórios onde cresceram.
A questão que permanece é outra. Se os jovens querem ficar, estarão as comunidades e as políticas públicas preparadas para lhes dar razões para permanecer?