Entrevista Política Tabuaço

José João Patrício: “Houve uma inércia tremenda da parte do anterior executivo”

Doze anos depois, Tabuaço volta a mudar de rumo político, com o regresso do Partido Socialista à liderança da autarquia. Em entrevista, José João Patrício traça um retrato crítico do estado em que encontrou o município, aponta falhas do anterior executivo e revela as prioridades de um mandato que promete ser de reestruturação, investimento e recuperação do tempo perdido.

12 anos depois, volta a conquistar a autarquia de Tabuaço para o Partido Socialista. Se lhe perguntar o que considera ter motivado esta mudança, qual seria a sua resposta?

Há vários fatores que podem justificar esta mudança, mas o destaque será o facto de, comparando mesmo com municípios vizinhos, Tabuaço ter ficado parado no tempo.

Houve uma inércia tremenda da parte do anterior executivo. Há medida que o tempo passa e me vou inteirando de todos os dossiers, vou tendo a noção do tanto que se perdeu em fundos para diversos setores.

Mesmo em 2025, ano de eleições, Tabuaço esteve parado, talvez porque estivessem convencidos que a vitória estava garantida.

É notório que houve acomodação, há pessoas, mesmo dentro do PSD, que dizem que nos últimos 6, 7 anos, o executivo estava convencido que isto seriam “favas contadas”.

Ainda recentemente falei com um dos meus colegas autarcas de um município vizinho, que tem uma série de obras em andamento, e algumas já em fase final de execução. Estando eleitoralmente numa posição mais confortável, não deixou passar nenhuma oportunidade de investimento através dos fundos disponíveis.

Aqui a postura era de conforto, prometer tudo às pessoas e depois não cumprir. A nível de projetos os desenvolvimentos eram quase nulos. Os dois únicos projetos que estavam aprovados, que eram da área social, nem sequer estavam a ser executados, fazendo com que o Município não fosse ressarcido daquilo a que tinha direito, fomos nós já em dezembro que resolvemos esta situação.

Havia ainda um terceiro projeto para modernização administrativa, que estava em aprovação, mas que acabamos por reformular porque entendemos que havia ali coisas não se justificavam, adaptando-o à nossa visão.

Tudo o resto estava parado, não havia projetos ou candidaturas. O Centro Escolar nem sequer estava registado, fomos nós que o fizemos agora.

A própria requalificação da estrada de Valença do Douro, que tanto se prometia, o projeto foi agora adjudicado. A própria restruturação da variante na vila e a futura nova conduta de água e saneamento, são projetos que estamos agora a desenvolver. Vêm aí fundos comunitários e queremos aproveitar, mas para isso temos de ter projetos.

Estávamos num ponto em que a execução era baixíssima. Na própria CIM Douro, Tabuaço era um município que praticamente estava a zeros. Vivia-se aqui um ambiente meio zombie.

A população percebeu isso?

Nitidamente percebeu. Acho que chegou a um ponto em que as pessoas entenderam que era mau demais.

Como é que encontrou a câmara?

Todo este estado de comodismo refletiu-se nas coisas mais simples. Para lhe dar um exemplo, nem o organigrama da câmara foi mudado desde 2013. Estamos há um ano sem Chefe de Divisão Administrativa, que no nosso caso até ainda usa a nomenclatura anterior, Chefe de Equipa Multidisciplinar. É o espelho deste parar no tempo.

Os computadores que estão aqui, foram comprados em 2010, 2011, no tempo do anterior executivo do PS liderado pelo João Ribeiro.

Neste espaço de tempo, não se compraram computadores, não se compraram viaturas, não se reformulou a orgânica do Quadro de Pessoal.

Quando aqui cheguei como vereador em 2009, o município tinha dois arquitetos e três engenheiros, neste momento temos um arquiteto e dois engenheiros, sem que estivesse sequer prevista a entrada de mais algum engenheiro, estava previsto admitir mais assistentes sociais!

Toda a estrutura da câmara está desequilibrada. O que estamos a fazer é reestruturar a autarquia por dentro, criar mais “músculo” de forma a dar resposta aos munícipes quando solicitados. Admitimos a entrada de uma ou outra pessoa, mas que traga mais-valia à câmara.

Que aporte qualidade?

Sim, qualidade, experiência e compromisso. A câmara vai passar por uma fase em que teremos muitos funcionários a passar à aposentação e será preciso fazer mudanças.

Queremos preparar a autarquia para o futuro, mais tecnológica, com uma resposta ao cidadão mais dinâmica e célere.

Depois desta reestruturação dos recursos humanos, temos também de olhar para o lado financeiro. A câmara não pode ter um prejuízo de cerca de 900 mil euros anuais em água, saneamento e resíduos. Em todo o concelho não há taxa de lixo a ser aplicada, e muitos nem água e saneamento pagam.

Um município que gasta tanto em água, saneamento e resíduos, e que não tem a receita que devia ter, fica com as contas desequilibradas. Depois há uma questão de justiça, em todos os municípios é cobrada esta taxa, porque não aqui?

É uma fonte de receita importante que se perde, e que faz com que depois não haja fundos para alavancar outro tipo de projetos e dinâmicas locais.

Assumimos um compromisso, sabemos que vai ser um ano difícil, mas temos de pôr em prática o pagamento de água, saneamento e resíduos. Não tem discussão, até porque temos entidades superiores, como é o caso da ERSAR, que não nos perdoa. A pessoa tem o direto de usufruir de um serviço, mas também tem o dever de o pagar, podendo depois existir diferentes apoios do município.

Já nos falou no parque automóvel, na modernização tecnológica da autarquia e nos recursos humanos. Em termos financeiros, qual é a situação do município?

A câmara está num ponto em que tem algumas contas para acertar. Temos uma dívida grande às Águas do Norte, que está em tribunal. Se essa fatura chegasse agora ficaríamos numa situação complicada. Neste momento é a dívida que temos para assumir.

Temos alguns acordos também com as IPSS, que foram assumidos e que de alguma forma nos condiciona. A câmara neste momento vive uma realidade de “chapa ganha, chapa gasta”, como diz o ditado.

Temos uma verba a receber como comparticipação pelo Parque Fotovoltaico, que está a ser construído na serra de Sendim, Chavães e Paradela.

Se não tivermos arrecadação de receita, através de águas, saneamento, lixos e também do Parque Fotovoltaico, não sei como será a situação. Só para a Águas do Norte, passa o meio milhão de euros em dívida, uma pancada forte ao que se somam os prejuízos provocados pelo mau tempo, como aconteceu em Santo Aleixo, por exemplo. São derrapagens financeiras com um grande impacto numa autarquia como a nossa. Se no final do mês a autarquia tiver um saldo positivo de 10 ou 15 mil euros, ou até mesmo 100 mil, não é nada. Só para trocar a caldeira das piscinas, por exemplo, estamos a falar de 30 a 40 mil euros.

Mas não chegou à autarquia e encontrou uma situação de não ter dinheiro para pagar salários?

Não, felizmente essa situação não acontece. Salários, energia e esse tipo de serviços estão garantidos. A questão é que não há sobras.

Vai ser um ano de muito cuidado?

Muita contenção. Gosto de cumprir as promessas, agora preciso de um ano para perceber como é que as coisas funcionam.

Há impostos a receber, subsídios a pagar, temos acordos com a banca, que vêm do passado que é preciso cumprir, questão das águas… precisamos de entender todo este ciclo para perceber com o que podemos trabalhar.

Uma câmara que chega ao final do ano com salários e serviços pagos e pouco mais faça, não está a fazer nada.

Está aqui sensivelmente há cinco meses, há alguma coisa que tenha encontrado que tenha sido efetivamente uma surpresa?

Esta questão das Água do Norte, confesso que não esperava que a dívida fosse tão alta. No dia em que descobri é daqueles em que vamos para casa desanimados.

Felizmente temos capacidade para ir à banca neste momento, até porque o duodécimo cresceu. No fundo não havendo investimento acaba por se conseguir equilibrar a situação financeira, mas não é por mérito ou planeamento, até porque esse planeamento não se vê, as coisas eram feitas mais em reação do que planeadas.

Disse durante a campanha que será um Presidente com transparência e dialogante, não abdica destes valores?

Claro que não. Não vale tudo na vida e há valores que qualquer pessoa que desempenhe um cargo público deve garantir. O Carácter e a personalidade medem-se muito por aquilo que fazemos. Mais do que dizer é fazer. Quando falamos com alguém devemos tentar perceber o lado dessa pessoa.

Ainda recentemente reunimos com uma associação do nosso concelho à qual apresentamos uma proposta estruturada e séria, que vamos cumprir.

Participei em reuniões aqui no passado em que se dizia “sim” e depois não se cumpria. Não prometo dar quatro se não posso, garanto que dou três, que é aquilo que consigo, mas esses três são mesmo entregues.

Era uma imagem do anterior executivo. O anterior autarca dizia que sim a toda a gente, mas depois era raro atender o telefone, e cumprir era um problema.

Quem desempenha este cargo tem defeitos de certeza, todos temos, mas a palavra dada tem de ser honrada.

Temos de ter a cara levantada para que, daqui a quatro anos, quando formos novamente a eleições, pelo menos possamos dizer que cumprimos com o prometido e assumir o que não conseguimos fazer.

Há muito trabalho para fazer aqui como disse, mas se for necessário que o autarca de Tabuaço esteja em Lisboa, no Porto ou em Bruxelas, vais estar lá?

Já fui ao Porto pelo menos três vezes, já tenho reuniões agendadas em Lisboa… se nós não nos mexermos, as coisas não vêm ter connosco.

Temos de ir às entidades até para que nos conheçam. Quando reuni com o IHRU disseram-me que o autarca de Tabuaço nunca tinha reunido com eles e achavam que não tínhamos tanta necessidade de habitação social!

Há muito trabalho que me obriga a ficar muitas horas dentro do gabinete, mas sou um homem de rua, do contacto com as pessoas.

Para quem assume este cargo com responsabilidade, sente esse peso.

Durante a campanha referiu também que pretende atrair investimento para Tabuaço. Em que setores é que o município é mais carente deste investimento?

Temos tido alguns contactos com investidores ligados ao setor do turismo e logística, e já reunimos com alguns também para perceber o que procuram.

Ter mais investimento aqui significa desde logo ter mais emprego, criar a possibilidade das pessoas de fixarem. Depois é também receita que vem para o concelho, que também ganha vida e dinâmica.

E a nível de infraestruturas de serviços, o que falta?

Quer o Quartel do Bombeiros, que o da GNR foram recentemente revitalizados, mas a nível de habitação Tabuaço neste momento não tem oferta. Se tivéssemos atualmente três ou quatro famílias que se quisessem mudar para cá, dificilmente conseguiriam encontrar casa.

Estamos a trabalhar para encontrar um investidor que construa aqui um bloco de 15, 20 apartamentos, isso seria fantástico.

Mas refere-se a habitação para a classe média ou para a mais desfavorecida?

Teria de ser um investimento pensado para a classe média.

A nível de habitação social terá de ser a autarquia a garantir, esse é um papel do Estado. O Programa 1º Direito ficou muito aquém do que se pretendia, o processo atrasou-se e perdeu-se muito dinheiro.

Até mesmo aqui Tabuaço ficou muito aquém dos municípios que nos circundam.

Noto alguma mágoa nas suas palavras, sente que Tabuaço ficou claramente atrás dos seus vizinhos?

Coloco muito em causa, sobre o executivo anterior, quantas horas gastaram a pensar nas oportunidades que havia, no que tinham de fazer, a que portas teriam de ir bater. E tinham tempo, nós agora estamos com prazos muito curtos para executar os fundos do PRR, o que é algo surreal.

Houve nitidamente uma inércia. Outros municípios de dimensão semelhante à nossa conseguiram fazer obra, aqui nem se conseguiu aproveitar o facto de a autarquia ser da mesma cor do Governo.

Ao longo destes 12 anos, quantos ministros ou responsáveis políticos passaram por Tabuaço?

Houve falta de vontade?

Foi um comodismo instalado, infelizmente.

Há uma máxima que diz que se não queremos ser criticados, então ficamos quietos e não fazemos nada, acho que aqui se seguiu essa linha.

No que diz respeito a projetos fundamentais para o município, quais serão as prioridades?

Uma das grandes prioridades é, sem dúvida, requalificar as nossas estradas municipais, sobretudo a que liga a N222 a Valença do Douro, que é muito utilizada pelos turistas e que está em péssimo estado.

Estamos já também a preparar o projeto para requalificar a ligação entre Tabuaço e Moimenta da Beira, que é para nós muito importante.

Temos a questão da eficiência energética do Centro Escolar e do Pavilhão Fábio Cecílio, são projetos com financiamento dos quais estamos a tratar com muito afinco.

Gostava de requalificar uma das praças da vila e do nosso auditório. Reformular os sistemas de saneamento e águas do fundo de vila.

Haverá depois outras obras, mas estas são questões fundamentais para nós.

São exequíveis até ao final do mandato?

Acredito que sim. Pelo menos os projetos estão enquadrados.

O aumento dos custos que agora se verifica pode trazer problemas, mas se as coisas estabilizarem acredito que teremos um mandato que pode trazer uma nova vida e uma nova dinâmica para Tabuaço.

Reuniu recentemente com os empreiteiros do concelho. Qual foi a ideia desta reunião e que conclusões de lá saíram?

Esta reunião serviu para lhes dar a conhecer um conjunto de obras que o município vai fazer e que era bom que eles agarrassem, era uma forma do dinheiro entrar na economia circular do município.

Outra ideia foi ouvir, mesmo as críticas. É importante para nós ouvir, desde logo porque não somos especialistas em obras, não temos conhecimento. Assim como também já fizemos reuniões com os produtores de azeite, com a restauração e o turismo.

É importante que haja este diálogo para que as coisas andem em frente, mesmo quando nos criticam, desde que seja uma crítica construtiva, lido bem com isso.

O município apresentou recentemente uma nova imagem institucional. Que significado tem esta nova cara de Tabuaço?

É uma imagem que resulta muito pela nossa identidade e que passa pela serra, pelo Douro e pelos olivais.

Foi um desafio que lancei a uma pessoa que conheço há muitos anos, que é um criativo fantástico e que conhece bem a nossa região, no sentido de criar uma imagem que espelhasse esse conceito, daí o slogan “Onde a serra se faz Douro”.

Para terminar, uma mensagem, em forma de compromisso aos seus munícipes que irão ler esta entrevista.

Um compromisso de servir o meu concelho, de falar sempre a verdade às pessoas e estar próximo delas, mesmo nos momentos difíceis.

Temos quatro anos que serão um grande desafio, de muito trabalho e muitas mudanças que têm de ser feitas.

Continuarei a ser a mesma pessoa, simples e humilde, tal como toda a minha equipa. Temos a nossa vida fora da política e o que nos move é mesmo a causa de servir Tabuaço.

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