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João Gonçalves: “Na CIM estamos habituados a discutir e a discordar, mas a procurar consensos”

Após assumir a vice-presidência da CIM Douro no mandato anterior, João Gonçalves foi votado unanimemente Presidente da Comunidade Intermunicipal, coadjuvado pelos vice-presidentes Paulo Figueiredo e Mário Artur Lopes.

Em entrevista exclusiva ao VivaDouro, o Presidente da CIM Douro fala dos desafios da região nos próximos quatro anos e dos objetivos traçados.

Foi eleito Presidente da CIM Douro no atual ciclo autárquico. Com que sentimento abraça este desafio?

É sempre com espírito de missão, de liderar com grande sentido de partilha com todos os colegas.

A CIM funciona de uma forma colegial, óbvio que precisa sempre de uma coordenação e é neste princípio que assumimos essa responsabilidade, eu e os vice-presidentes que me acompanham.

Estamos cientes da responsabilidade e da grande disponibilidade que precisamos ter. Hoje não podemos deixar de ter atenção às solicitações que há quer em termos de representatividade, quer de participar em discussões nos diversos fóruns e com as diversas entidades, sejam internas, da região norte ou mesmo com entidades nacionais e o Governo.

Temos várias frentes abertas e uma delas obriga-nos, por exemplo, a estar próximo das instituições europeias e por isso mesmo a CIM tem lá uma representação permanente.

"A CIM funciona de uma forma colegial, óbvio que precisa sempre de uma coordenação"
 

São apenas exemplos da disponibilidade que é preciso ter, mas tudo se consegue assim as entidades estejam devidamente organizadas e todos cumpramos o que nos propomos fazer.

É eleito para este cargo sem que nunca tivesse sido um objetivo pessoal. Considera esta eleição como um reconhecimento dos seus pares pelo trabalho desenvolvido nos oito anos que soma como autarca?

Desde já agradeço, e já agradeci a cada um dos outros 18 autarcas, colegas, a confiança que nos mostraram ao permitirem que sejamos a Presidência da Comunidade Intermunicipal.

Diz, e bem, que este não era um objetivo pessoal. A minha vida, o meu percurso político tem sido um pouco assim, mesmo assumindo que o tenho feito por merecer, claro que sim, mas não era um objetivo à partida presidir à CIM.

A CIM Douro celebra este mês 17 anos de existência, tem vindo a consolidar-se no território com estruturas importantes, que acreditamos que podem ser plataformas de criação de sustentabilidade para o território.

Um território destes, com o peso que tem, terá com certeza a possibilidade de, quer na região, quer no país, ir um pouco mais além. Por vezes até extravasando um pouco o conceito de Comunidade intermunicipal.

Como referiu, este é um cargo exigente, que requer disponibilidade. Pode este fator influenciar a sua função de autarca de Carrazeda de Ansiães?

O nosso foco, e acredito que isto é verdade para cada um dos 19 autarcas da região, é o município pelo qual cada um foi eleito. É o compromisso que temos com as nossas populações, com os nossos territórios.

Com certeza que numa Comunidade Intermunicipal como a do Douro, qualquer um dos autarcas poderia ser Presidente, todos têm condições para o ser. Por este ou aquele fator, e talvez também por estarmos no terceiro mandato e termos um conhecimento mais profundo deste ou daquele dossier e do funcionamento da CIM, tendo sido Vice-Presidente no anterior mandato, acabou por surgir a oportunidade de me apresentar como solução aos meus colegas, que foi aceite unanimemente.

Daqui a quatro anos, quando fizermos um balanço deste mandato que agora inicia, que projetos estruturantes para a região considera que devem estar fechados, ou próximo disso?

Esses objetivos estão bem traçados.

Desde logo não podemos descurar o funcionamento da própria CIM, que continue a ser uma plataforma para cada um dos municípios, os seus autarcas e equipas técnicas, ajudando a concretizar os seus anseios, dentro das competências que a Comunidade tem.

As CIM’s existem para exercer determinadas competências, e elas devem ser exercidas, sempre pensando que os municípios têm de estar confortáveis nessa participação.

Depois não podemos esquecer a importância que tem a execução de fundos da União Europeia (UE), em todos os municípios, através dos diversos programas.

Também aqui as Comunidades Intermunicipais assumem-se hoje como plataformas muito importantes, junto das entidades gestoras destes programas, da CCDR e do Governo, com compromissos fundamentais para que haja uma estratégia que integre os municípios e que ganhe escala.

Dando um exemplo concreto. Há vários anos que a CIM foi desafiada a identificar investimentos prioritários e estratégicos para a região. Na altura houve bastantes discussões, com cada município a lutar pelas suas prioridades, contudo conseguimos chegar a um entendimento sobre três projetos (IC26, reabertura da Linha do Douro até Barca D’Alva e o Douro Inland Waterway). Penso que não há outra CIM que tenha conseguido fazer este exercício.

 A verdade é que ao longo destes anos temos mantido o foco nestas prioridades. Os diversos Governos que ao longo destes anos foram passando, já perceberam que as nossas prioridades se mantêm e que a nossa luta é essa.

Para além de tudo isto é importante que a CIM possa participar nas grandes preocupações que há com o desenvolvimento económico, social e cultural do território. Como responsáveis políticos não podemos descurar o papel que podemos ter junto das diversas entidades para chamar à atenção para aquilo que achamos mais justo ou mais importante para a sustentabilidade da região.

Considerando os três projetos que a CIM tem definidos e a importância de aproveitar cada Euro dos fundos comunitários. Acredita que em 2029 esses projetos estejam executados?

Estarão, com certeza, se trabalharmos como temos vontade de o fazer, num estado mais avançado, para atingir o objetivo final, isso é que é mais importante.

Há questões que nesse espaço temporal não estarão completamente resolvidas, mas se estiverem em desenvolvimento será um passo importante.

Um dos recursos mais importantes da região são, sem dúvida, os vinhos, em especial do Douro e Porto. Tendo em conta a situação deste setor, o que pode a CIM fazer em defesa dos pequenos e médios viticultores?

É uma grande preocupação de todos, principalmente com certeza para aqueles que mais diretamente estão ligados ao setor.

Acredito que também para o Governo esta seja uma preocupação, até pelo significado que o setor tem para o PIB nacional e pensando só na questão económica.

Preocupa-nos muito o presente e nos últimos anos não tem sido nada abonatório para a região. Chegamos a um ponto onde todos os anos, muito perto da vindima, se levantam todos os problemas e se pede medidas excecionais. É importante que se faça mais.

Quando surgem as crises são necessárias ações a curto prazo, mas temos a responsabilidade, todos na região, de darmos o nosso contributo, na medida do possível, para que algo se vá mudando estruturalmente.

Foi agora dado um passo importante, o Governo criou uma Comissão, será responsável por apresentar alguns resultados, no sentido de serem implementadas medidas que possam ir melhorando o estado das coisas. É importante a participação de todos, nomeadamente os setores da produção e do comércio, a CIM foi chamada a dar o seu contributo e não o irá descurar. É importante que se aprofundem possíveis soluções, tendo presente que é um problema que não é apenas do Douro, sabemos bem da realidade dos números de consumo e temos de ter em conta todos os indicadores.

Estamos a falar da região demarcada e regulamentada mais antiga do Mundo, uma região que já passou por muitos problemas, que conseguiu ultrapassar.

Sem entrar em utopias, acredita que se possa chegar a um entendimento que apresente soluções estruturantes?

Com certeza, a região tem de se adaptar a um mundo que está em constante mudança. Não nos podemos esquecer das alterações climáticas, de consumos, e de todas as envolventes que nos próximos anos condicionarão o setor.

Há oportunidades que devem ser devidamente aproveitadas. Hoje a região tem oportunidade, felizmente, de ter também em termos económicos um olhar diferente, bem como em termos tecnológicos.

Temos as novas gerações que estão muito mais sensíveis para diversas abordagens, o turismo e o enoturismo que têm um peso cada vez maior e que nos dão uma visão diferente sobre quem nos procura.

Um leque de oportunidades que nos cabe a nós aproveitar, não esquecendo que se a região tem a projeção que tem hoje, o deve a gerações e gerações de homens e mulheres que contribuíram para que fossemos conhecidos por este vale e paisagens que a própria UNESCO reconheceu como Património Mundial.

"Há oportunidades que devem ser devidamente aproveitadas"
 

Para mantermos este desígnio temos de reconhecer que estas famílias têm de ter uma participação ativa na preservação da região, e para os podermos manter temos de olhar pela sua sustentabilidade económico-financeiras.

É notória na sua resposta a preocupação com a memória de quem construiu a região, isso para si é irrefutável?

Sem dúvida. Tanto a memória imaterial como à preservação dessa gente que tem valorizado e feito o Douro. Eles é que fizeram esta região. Hoje se temos o turismo que temos na região, a via navegável com a ocupação que tem, é porque as pessoas vêm ver esta paisagem única, e que é dinâmica ao longo do ano.

Num Despacho recentemente assinado pelo Ministro da Agricultura, a CIM passa a integrar um grupo de coordenação dedicado ao Plano de Ação para o Douro. Este é um passo importante para a Comunidade?

 Considero que sim. Desde logo é um reconhecimento daquilo que a CIM significa em termos de organização do território, mas mais do que isso é um reconhecimento que é dado à CIM Douro por ao longo dos últimos anos ter acompanhando com muito interesse, e nomeadamente junto dos sucessivos governos, o trabalho das estruturas que supervisionam, quer a produção, quer a comercialização.

É uma oportunidade de darmos o nosso contributo, somos autarcas, representamos os nossos municípios, temos um papel diferente dos atores do setor, mas temos esta sensibilidade e um olhar para o território e as suas populações, que mais ninguém tem.

Somos representantes do que se vive neste território e temos essa visão próxima do cidadão que podemos levar a esse grupo de trabalho.

É importante ainda porque mostra que estamos alinhados com o Ministro da Agricultura, no sentido de que não podemos andar na região, perto da altura da vindima, a levantar questões. Pontualmente isso poderá acontecer, mas é fundamental que se comecem a arranjar consensos entre os intervenientes.

É mais fácil se todos remarem para o mesmo lado?

Acho que é o que tem faltado.

Na CIM estamos habituados a discutir e a discordar, mas a procurar consensos. É importante que quem intervém neste setor tenha a noção, que para haver futuro para todos tem de ser gizado um plano e implementadas as medidas para se chegar a esses objetivos.

Que impacto poderá ter o acordo UE-Mercosul na região?

Considero que possa ser uma boa oportunidade. Não conheço o acordo em detalhe, mas para o setor dos vinhos, que falávamos, pode ser uma boa oportunidade.

É um mercado concorrencial, mas temos a possibilidade de podermos entrar com os nossos vinhos na América do Sul sem o preço das tarifas a torná-los quase proibitivos. Temos vários reports de produtores que têm tentando entrar nesses mercados e as tarifas são um grande entrave.

Haverá outros produtos que farão o caminho inverso, mas para o setor dos vinhos acredito que será uma oportunidade interessante.

Recentemente a CIM Douro apresentou uma nova rota turística intitulada “Douro Olive Oil Experience”, é significado de uma aposta mais forte no setor do turismo?

Sim, o turismo tem tido, na nossa região, um crescimento assinalável. Pena é que o território não esteja ainda preparado para suportar a procura e o nível da procura, que também é importante salientar. Os mercados que nos procuram são muito exigentes, mas também deixam muitas mais-valias no território.

Em todos os nossos municípios os autarcas sentem que o turismo tem um peso cada vez maior nas economias locais.

Temos alguns condicionalismos na oferta hoteleira, até porque existem regras muito apertadas de construção, o que para os autarcas acaba por ser uma dor de cabeça. É difícil saber que temos um investidor com capacidade para ser relevante para a economia local e perdê-lo por condicionalismos. Não queremos ser uma Reserva, queremos ter um território desenvolvido, sustentável ambientalmente, e com pessoas. Para isso é preciso economia.

Levantando um pouco o véu, como será esta Rota?

O projeto está em desenvolvimento, por agora não vamos ainda falar sobre o que está a ser criado.

Mas esta aposta em outra fileira, como o azeite, que significado tem?

É diversificação. Hoje o Douro não é só vinho, como é evidente. Nos produtos endógenos de excelente qualidade, já temos uma diversificação grande.

O azeite é um exemplo, esse é um projeto que pretendemos criar juntamente com alguns produtores de excelência de azeite, para que as pessoas possam visitar os olivais ou assitir à produção do azeite e ter provas nessas explorações agrícolas.

Mas há outras zonas onde a castanha é importante, ou a amêndoa, a maçã que na região da CIM Douro, a produção já representa mais de 50% do total nacional.

Mesmo em termos de vinhos, falamos dos Douro e Porto, mas há também a região Távora-Varosa com os seus vinhos e espumantes, por exemplo.

Temos também outros setores da economia que têm vindo a crescer, o que é importante para haver mais sustentabilidade.

Para terminar, uma mensagem que queira deixar aos seus colegas e à região.

Não gosto muito de personalizar essas questões, serei o rosto de uma equipa que são todos os autarcas e que pugnam para que as nossas populações possam ter uma melhor qualidade de vidas, criando condições para que a região se possa desenvolver, não perdendo a sua identidade.

Que a nossa marca seja o nosso contributo para que daqui a quatro anos sintamos que fizemos tudo para que a situação esteja melhor.

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