O percurso de Paulo Teixeira na enologia não foi linear. Pelo contrário, foi feito de avanços, recuos e descobertas que acabaram por moldar a sua identidade enquanto enólogo. Hoje ligado à Casa de Vinhago, na região do Távora-Varosa, olha para trás com a certeza de que cada etapa contribuiu para a forma como hoje encara o vinho.
Formado em Agricultura e Enologia na Escola Profissional do Rodo, iniciou-se com estágios na Quinta do Portal e na Adega Cooperativa de Vila Real, ao lado de Luís Soares Duarte. Seguiu-se uma primeira vindima na Quinta do Tedo, que acabaria por marcar uma pausa no percurso. “Não gostei da experiência e acabei por sair da área”, recorda. Durante cerca de um ano, afastou-se da enologia para trabalhar na metalomecânica com o pai. “Ganhava-se bem”, diz, entre risos.
O regresso aconteceu pouco depois, motivado por um novo convite para uma vindima na Quinta do Portal. O que seria uma experiência pontual prolongou-se por quatro anos. “Fui aprendendo e estudando por minha conta, ganhando experiência”, explica. Mais tarde, voltou a trabalhar com Luís Soares Duarte, integrando diferentes projetos de produção e consultoria.
Foi nesse período que consolidou uma das competências que mais valoriza no seu percurso. “Trabalhei nas três sub-regiões do Douro e em adegas muito diferentes, muitas delas quase sem condições e outras já bastante desenvolvidas”, conta. Essa diversidade obrigou-o a adaptar-se constantemente, algo que considera ter sido determinante para o passo seguinte.
A experiência acumulada levou-o a avançar com um projeto próprio, prestando assistência a várias quintas. Foi nesse contexto que chega ao Távora-Varosa e à Casa de Vinhago. O primeiro contacto surge para resolver um problema pontual num vinho, mas rapidamente evolui para uma colaboração contínua.
“Começámos a fazer algumas brincadeiras que se foram tornando sérias”, recorda sobre o início do projeto com a família Pedrosa. O que começou de forma despretensiosa cresceu de forma natural e deu origem a uma produção diversificada, que hoje inclui brancos, rosés, tintos e espumantes. Entre as apostas, destacam-se os monocastas de Tinta Roriz e Touriga Nacional, que considera “um pouco fora do baralho” para a região.
Produzir vinho no Távora-Varosa revelou-se, desde cedo, um desafio exigente. “É uma região ‘fácil’ para brancos e espumantes, mas difícil para tintos”, admite. A primeira experiência com tintos ficou longe do desejado. “O primeiro tinto que produzi aqui era intragável”, recorda, com humor. “Apliquei o estilo que trazia do Douro e o resultado foi um vinho duro, com muito vegetal.”
A aprendizagem foi imediata. “No ano seguinte mudei o método de trabalho e consegui vinhos mais elegantes”, explica. Uma adaptação que reflete a sua abordagem: compreender o território antes de impor um estilo.
É precisamente essa identidade que mais o cativa na região. “São vinhos com uma frescura marcante que vão buscar à altitude e com capacidade de envelhecimento”, sublinha. Mesmo com graus alcoólicos mais baixos, destaca a longevidade dos vinhos, muitas vezes associada a baixos níveis de sulfuroso.
Ao contrário do Douro, onde identifica um perfil mais homogéneo, o Távora-Varosa distingue-se pela diversidade. “Cada casa tem o seu perfil. O vizinho do lado pode ter as mesmas castas, mas só por estar 100 metros ao lado já muda o vinho”, explica. Para o enólogo, é precisamente essa variabilidade que permite criar produtos únicos.
Na Casa de Vinhago, o trabalho é feito em pequena escala, combinando inox e barrica. Ainda assim, há um fator que considera determinante: o tempo. “O segredo está no tempo de garrafa que lhes damos”, afirma. “Mesmo os brancos, ao fim de três ou quatro anos, tornam-se muito mais elegantes.”
Apesar da evolução qualitativa, reconhece que a região ainda enfrenta desafios ao nível da perceção. “As pessoas ainda ficam com o pé atrás quando falamos dos vinhos do Távora-Varosa, muito por causa da imagem ligada aos espumantes”, refere. No entanto, acredita que essa realidade está a mudar, impulsionada pelo trabalho de promoção.
“Tem-se feito um trabalho importante, especialmente fora de portas, com profissionais do setor”, destaca, sublinhando o papel da Comissão Vitivinícola Regional. Os resultados começam a ser visíveis, como exemplifica com um jantar vínico em Aveiro: “Passados uns dias, os nossos vinhos já estavam na carta do restaurante.”
Outro traço distintivo da região é o espírito de colaboração. “Trabalhamos muito em conjunto, há troca de ideias, o que nos ajuda a crescer”, afirma. Apesar da concorrência, considera que existe um ambiente saudável entre produtores e enólogos.
Nesse percurso, destaca também o apoio de Marta Lourenço, com quem foi construindo uma relação ao longo de iniciativas da CVR. “Foi uma das pessoas que mais me ajudou e continua a ajudar sempre que preciso”, reconhece.
O futuro da região passa, na sua visão, pela internacionalização. “É uma região já estabelecida no mercado nacional, muito pelo espumante, mas precisamos de explorar os mercados externos”, defende. Acredita que há potencial para afirmar o Távora-Varosa além-fronteiras.
Paralelamente, sublinha a transformação do papel do enólogo. “Hoje o trabalho vai muito além da adega”, afirma. “Começamos logo a pensar nas castas, na poda, em todo o cuidado com a vinha.” O objetivo é conhecer profundamente a matéria-prima antes de chegar à adega, garantindo maior precisão no resultado.
Essa envolvência estende-se também à fase comercial. “Acabamos por ter um papel até na venda”, acrescenta, destacando como a profissão se tornou mais exigente, mas também mais completa.
Um percurso feito de aprendizagem contínua, onde cada erro foi também uma oportunidade. E onde a capacidade de adaptação continua a ser, mais do que uma ferramenta, uma assinatura.