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Guerra provoca subida dos preços

Com a pandemia finalmente a parecer querer dar tréguas, 2022 começou com a perspetiva de regresso à normalidade, contudo, a guerra iniciada por Vladimir Putin na Ucrânia veio alterar o cenário mundial levando a uma escalada de preços que pesa na carteira dos consumidores.

De acordo com um estudo realizado pela DECO, atualmente o cabaz de bens alimentares custa ao consumidor final mais de 200€.

“O preço de um cabaz de bens alimentares essenciais registou, entre 13 e 20 de abril, uma ligeira descida de 0,88 cêntimos (menos 0,44%), passando a custar um total de 200,79 euros. Esta é a segunda vez que o custo do cabaz de alimentos desce desde que iniciámos esta análise, a 23 de fevereiro, um dia antes da invasão da Ucrânia pela Rússia. No entanto, na maioria das semanas analisadas têm-se registado aumentos significativos. Entre 6 e 13 de abril, por exemplo, o mesmo cabaz de bens alimentares passou a custar mais 6,75 euros (mais 3,46 por cento). Já no período entre 23 de fevereiro e 20 de abril, o cabaz ficou 17,16 euros (mais 9,35%) mais caro”, lê-se no comunicado da associação de defesa do consumidor.

Ainda de acordo com o mesmo estudo alguns dos produtos que compõe este cabaz aumentaram em dois dígitos percentuais o seu custo.

“Desde fevereiro, temos monitorizado todas as quartas-feiras, com base nos preços recolhidos no dia anterior, os preços de um cabaz de 63 produtos alimentares essenciais que inclui bens como peru, frango, pescada, carapau, cebola, batata, cenoura, banana, maçã, laranja, arroz, esparguete, açúcar, fiambre, leite, queijo e manteiga.

Esta análise tem revelado aumentos quase todas as semanas, com alguns produtos a registarem subidas de preços de dois dígitos de uma semana para a outra. Entre 13 e 20 de abril, o alho seco, por exemplo, registou um incremento de 12%, passando a custar mais 0,30 cêntimos em apenas uma semana. O preço do quilo de salmão fresco também foi dos que mais subiram no espaço de uma semana, passando de 12,94 euros, em média, a 13 de abril, para 14,20 euros, em média, a 20 de abril (mais 10 por cento). Se analisarmos exclusivamente as categorias de produto com maiores subidas de preços entre 13 e 20 de abril, a carne e o peixe são as que mais se destacam, com incrementos percentuais de 12,95% e 18,59%, respetivamente. Estas também já tinham sido as categorias com maiores aumentos nas duas semanas anteriores”.

Mercados, feiras e pequeno comércio sufocados com aumentos

No Mercado Municipal de Peso da Régua a quarta-feira é dia de azáfama com centenas de pessoas a passarem por este espaço com o intuito de comprarem os seus produtos. Onde antes se iam ouvindo pregões a anunciar o quilo da cebola mais barato que a banca do lado, agora os mesmos pregões argumentam com a frescura dos produtos.

Maria Gomes já soma um par de décadas na sua banca do mercado, a pergunta que mais ouve por estes dias é, confessa-nos: “quanto custa?”, sendo que depois da sua resposta vem quase sempre um desabafo, “está muito caro, não levo”.

“Há produtos em que o preço aumentou bastante e, com a diminuição do poder de compra, notamos que as pessoas levam menos produtos. Há pessoas que levavam grande quantidades de frutas e legumes, aquilo que se nota é que as pessoas estão a comprar com mais cuidado, em menos quantidade”.

O aumento do preço dos produtos, aliado ao aumento do preço dos combustíveis têm levado a um esmagamento das margens de lucro.

“O transporte destes produtos também tem aumentado com o preço dos combustíveis mas não podemos refletir todo esse aumento no custo ao cliente, senão as pessoas deixam mesmo de comprar, temos que ser nós a absorver esse custo, o que também não nos deixa muita margem, por exemplo, estou a vender aqui um molho de grelos por 1,80€, a mim o mesmo molho custou-me 1,70€, não temos margem”, explica Maria Gomes.

Já fora do mercado, entre os vendedores da feira semanal o sentimento é semelhante. José Costa vende têxtil infantil, veio de Amarante para Peso da Régua mas faz outras feiras pela região.

Nos produtos que vende assume “ainda não ter sentido um aumento dos custos”, contudo, “o preço dos combustíveis e das licenças de venda” têm um peso muito significativo no orçamento do negócio, mais ainda numa altura em que se começa a sentir “uma diminuição do poder de compra dos clientes”

“O que nos pesa mais atualmente é o preço dos combustíveis e o preço que pagamos pelas licenças nas feiras.

As autarquias deviam ter mais atenção à nossa situação, não digo que optassem por uma solução como foi durante a pandemia, que nos isentaram das taxas, mas podiam ter em atenção o aumento dos custos e o decréscimo do negócio para fazerem um desconto”.

Questionado pela nossa reportagem sobre se ainda compensa a viagem desde Amarante para vender nas feiras da região do Douro, José Costa, com um olhar hesitante responde, “depende dos dias”.

Na vila de Mesão Frio visitamos a frutaria de Ana Bernardo. Com a porta aberta para a rua principal da vila há cerca de sete anos, esta empresária confessa à nossa reportagem que “nunca o negócio esteve tão mau como nos dias de hoje”.

“Estou aqui há sete anos, nos primeiros dois ou três trabalhamos bem mas depois o negócio foi decaindo. Primeiro foi a pandemia e agora uma guerra, não sei qual será o futuro para os pequenos comerciantes. Temos os custos fixos (renda, contabilidade, água, luz, fornecedores, etc) que temos de assumir, o único que podemos não pagar é o meu próprio salário. Em janeiro e fevereiro deste ano nem salário consegui tirar. Com esta instabilidade não consigo contratar ninguém, o que me obriga a estar aqui sempre, mesmo quando estou doente”.

Entre os clientes são muitas as reclamações, com o aumento dos preços já nem todos os produtos saem das prateleiras e os que saem são em menor quantidade.

“Há pessoas que reclamam muito do preço que estamos a cobrar mas é algo que não podemos evitar. A alguns até lhes pergunto se querem ver a fatura dos valores que paguei para perceberem.

Normalmente vou buscar produtos duas ou três vezes por semana e aquilo que temos notado é que, por exemplo, se vou numa segunda feira o preço é um, dois ou três dias depois os mesmos produtos já estão mais caros. Uma carga de produto que antes me custaria mil euros, por exemplo, agora é capaz de ficar por 1500, é uma subida muito grande.

Tenho vários clientes que vêm fazer encomendas e uma dificuldade que temos é garantir o preço porque não sabemos quanto vamos pagar ao nosso fornecedor”.

Pão já aumentou duas vezes este ano

Um dos produtos onde a escalada dos preços tem sido mais notada é no pão que, só este ano, “já teve dois aumentos”, conta-nos Eugénia Coutinho, padeira há 41 anos.

“Estou neste ramo há 41 anos e não me lembro de haver aumentos no pão como agora, normalmente o preço aumentava a cada 8 ou 10 anos, este ano já aumentou duas vezes, em janeiro passou de 12 para 15 cêntimos e agora já custa 17 cêntimos, é algo inédito.

Foi um aumento muito violento. Não me recordo de um aumento semelhante. A farinha aumentou quase para o dobro, bem como os derivados e o combustível para os carros que fazem a distribuição”.

Para a empresária do ramo da panificação este aumento dos preços deve-se, sobretudo, à guerra na Ucrânia, principal fornecedor de cereais de Portugal.

“A guerra aumentou muito o preço dos cereais porque um dos nossos maiores fornecedores é a Ucrânia. Ainda hoje recebemos uma encomenda de farinha e o fornecedor já nos avisou que na próxima semana vai estar mais cara, tem sido sempre assim nos últimos tempos”.

No caso de Eugénia Coutinho a situação é mais grave na distribuição de pão, somando o custo do combustível com o preço mais reduzido de revenda, é escassa a margem de lucro do negócio.

“É uma tradição levarmos o pão ao cliente. Temos escolas, hotéis, barcos, uma série de clientes que temos de ser nós a entregar o pão. Esta situação tem dois problemas, desde logo com o aumento dos combustíveis, a distribuição fica mais cara, depois são clientes que pagam a preço de revenda, mais baixo que o cliente habitual, ou seja, a margem de lucro é espremida ao máximo”.

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