Destaque Reportagem

Douro volta a produzir mais e enfrenta o desafio de vender melhor

A vindima de 2026 começou mais cedo no Douro e os primeiros sinais deixados pelas vinhas são positivos. Os viticultores falam de uvas sãs, bons parâmetros de maturação e aumentos de produção face ao ano passado. A previsão da ADVID aponta para uma recuperação significativa da colheita, mas, num setor ainda pressionado pelos stocks e pelas dificuldades de escoamento, uma boa vindima volta a colocar a mesma pergunta, como transformar mais uva em mais valor para quem a produz?

No Douro, a vindima já arrancou. Em alguns casos, com cerca de duas semanas de avanço face ao ano passado. As primeiras castas brancas e destinadas aos espumantes começaram a chegar às adegas no início de agosto e, à medida que a colheita avança, os primeiros balanços feitos no terreno são maioritariamente positivos.

Óscar Quevedo

Em São João da Pesqueira, Óscar Quevedo começou a vindimar cerca de 15 dias mais cedo do que em 2025. Uma antecipação que, lembra, ganha ainda maior significado quando comparada com a realidade de há uma década ou mais. “Se formos comparar com a realidade de há 10 ou 15 anos, começávamos a vindimar no início de setembro. É um sinal dos tempos”, explica o produtor.

A altitude das vinhas durienses, considera, acaba por funcionar como uma proteção perante o aumento das temperaturas. “Temos vinhas nos 700 metros, se pensarmos que a cada 260 metros que subimos a temperatura desce um grau, já podemos perceber o impacto. Em viticultura um grau é imenso. Esta situação acaba por nos proteger ainda um pouco dos efeitos das alterações climáticas.”

Em Mesão Frio, Justina Teixeira iniciou a vindima a 4 de agosto, cerca de 15 dias antes da média e uma semana antes do que tinha acontecido em 2025. Também aqui, os primeiros sinais são animadores. “Este ano a produção está fantástica. As uvas estão muito sãs, sem qualquer sinal de doença. Em termos de quantidade será também um ano muito bom. Para nós será uma campanha semelhante a 2024”, afirma.

Na Real Companhia Velha, Rui Soares, enólogo, começou ainda mais cedo, a 3 de agosto, inicialmente com as uvas destinadas aos espumantes e depois com as castas brancas mais precoces. Também fala numa antecipação de pelo menos uma semana em Valdigem.

“Estamos numa fase inicial, mas há um aumento de produção em relação ao ano passado. Não tão elevado como se poderia pensar. É um ano de produção média”, explica, acrescentando que, em termos qualitativos, os primeiros sinais são igualmente positivos, “os parâmetros estão muito equilibrados.”

A antecipação da vindima não é apenas uma questão de calendário. Em anos quentes, colher no momento certo pode ser determinante para preservar a acidez e o equilíbrio dos vinhos. “Estamos a vindimar mais cedo para não haver quebras de acidez, que é sempre um risco que se corre”, explica Rui Soares, que tem também vinhos com marca própria, os Vinhos MIMO e Esmero na zona de Valdigem, onde conta também com a antecipação da data de vindima.

Rui Soares

Em São João da Pesqueira, Óscar Quevedo também olha para a evolução das uvas com alguma prudência. “Nesta fase aquilo que me tem surpreendido é a heterogeneidade dos cachos. No mesmo cacho temos bagos completamente desenvolvidos e outros menos desenvolvidos.” Ainda assim, acredita numa evolução positiva e considera que ainda é cedo para fazer grandes previsões.

A meteorologia, acrescenta, poderá continuar a ser determinante. “Será um ano bom, mas ainda é cedo para grandes previsões.” O produtor lembra que os anos que deram origem a algumas das grandes colheitas do Douro tiveram características semelhantes, com invernos frios e chuvosos e menor pressão de doenças durante a primavera.

Mais produção, mas quanto mais?

Se existe uma tendência comum entre os primeiros produtores a vindimar, é a de uma recuperação da quantidade.

Óscar Quevedo estima um aumento de 15% a 20% relativamente ao ano passado. Justina Teixeira fala numa campanha semelhante a 2024. Rui Soares é mais moderado e considera que, para já, se está perante um ano de produção média, ainda assim superior a 2025.

As primeiras impressões no terreno encontram correspondência na previsão da Associação para o Desenvolvimento da Viticultura Duriense (ADVID), que estima para 2026 uma produção entre 243 mil e 272 mil pipas.

O intervalo representa uma recuperação expressiva face às cerca de 178 mil pipas declaradas em 2025, depois de uma das campanhas mais fracas das últimas décadas.

Mas a ADVID pede cautela. A estimativa é baseada, entre outros elementos, no método do pólen recolhido durante a floração e não consegue incorporar todos os acontecimentos posteriores que podem condicionar a produção. O calor, o stress hídrico e a evolução das condições meteorológicas durante a maturação podem ainda alterar significativamente o resultado.

No balanço intercalar realizado, entretanto, Luís Marcos, diretor-geral da associação, admitiu mesmo que a produção “poderá ficar próxima do limite inferior da previsão ou até abaixo dele”.

Ainda assim, se as estimativas se confirmarem, 2026 representará uma recuperação importante face a 2025 e aproximará novamente o Douro dos níveis produtivos de anos anteriores. A questão é saber o que acontece depois de as uvas entrarem nas adegas.

A boa vindima que não resolve tudo

O problema do escoamento mantém-se e foi precisamente essa realidade que levou cerca de uma centena de viticultores a manifestar-se em Peso da Régua, numa concentração promovida pela CNA e pela AVADOURIENSE.

A manifestação aconteceu já com algumas vindimas em curso e colocou no centro da discussão “os baixos preços pagos pela uva, as dificuldades de comercialização e a incerteza quanto ao futuro da pequena e média viticultura”, explica Berta Santos.

Os produtores reclamaram, entre outras medidas, contratos obrigatórios para a compra de uva, a proibição da aquisição abaixo dos custos de produção, a utilização de aguardente de origem regional no Vinho do Porto, maior fiscalização e uma destilação de crise que permita reduzir excedentes.

Para Berta Santos, dirigente da CNA, a situação pode colocar em causa a própria continuidade de parte da estrutura produtiva do Douro. “Ou algo é feito para os pequenos e médios produtores, ou veremos parte da região ser abandonada em breve”, alertou.

Autarca tabuacense presente no protesto

Na manifestação esteve também o presidente da Câmara de Tabuaço, José João Patrício, que se juntou aos viticultores do concelho em sinal de solidariedade.

“Um autarca tem de estar solidário com as pessoas que dia a dia lutam por defender este Património Mundial, pessoas que vivem do trabalho diário do cultivo da vinha e que neste momento estão a passar por grandes dificuldades com muita incerteza no futuro. É isso que venho aqui fazer, mostrar a minha solidariedade”, afirmou.

O autarca diz ter falado com os viticultores de Tabuaço e identifica uma preocupação crescente com a capacidade de escoamento da produção.

“É preocupante como alguém passa o ano todo a tratar da sua vinha e no final do processo recebe uma comunicação a dizer que não tem quem lhe compre as uvas e os que conseguem vender fazem-no com valores muito reduzidos”, afirmou.

A frase resume um dos paradoxos da vindima de 2026, a vinha pode estar a dar mais, mas isso não significa que o viticultor esteja a receber mais.

Foi precisamente perante estas preocupações que uma delegação dos manifestantes foi recebida pelo presidente do IVDP, Gilberto Igrejas. Em declarações exclusivas ao VivaDouro, o responsável reconheceu a urgência sentida pelos produtores, mas defendeu que muitas das respostas reclamadas já estão previstas no Plano Executivo para a Região Demarcada do Douro.

“Respeitamos inteiramente o direito à manifestação. As confederações participaram no processo de auscultação e muitas das matérias que defenderam estão expressamente contempladas no Plano Executivo para a Região Demarcada do Douro”, afirmou.

Gilberto Igrejas considera que o momento é agora de passar das propostas à execução. “Compreendemos a urgência dos viticultores, precisamente por isso, o importante agora é concretizar as medidas e continuar a aperfeiçoá-las onde isso seja possível e legalmente admissível”, acrescentou.

Questionado pelo VivaDouro sobre as reivindicações entregues pelos produtores, o presidente do IVDP foi concreto, “grande parte dessas reivindicações encontra já resposta no Plano: aguardente de origem regional, custos de produção de referência, contratos, ajustamento do potencial produtivo, redução de excedentes e medidas de valorização económica e ambiental da viticultura”.

E deixou uma ressalva quanto ao processo de implementação, “estamos disponíveis para continuar a trabalhar sobre essas propostas, mas as decisões têm de respeitar a lei e, quando aplicável, os mecanismos próprios do Conselho Interprofissional”.

O Plano para o Douro

É neste ponto que a vindima de 2026 se cruza com uma discussão que ultrapassa a campanha deste ano.

O Plano Executivo para a Gestão Sustentável e Valorização do Setor Vitivinícola da Região Demarcada do Douro parte de um problema que se tornou evidente nos últimos anos, uma região com capacidade para produzir mais do que aquilo que o mercado consegue absorver, acumulando stocks e pressionando o rendimento dos produtores.

Com horizonte até 2032, o documento estabelece como objetivos a redução dos stocks, a valorização do preço da uva, o reforço da posição dos produtores na cadeia de valor e o ajustamento do potencial produtivo.

Entre as medidas previstas estão os contratos escritos para a compra e venda de uva, mecanismos de referência para os custos de produção, o ajustamento da área produtiva, a redução dos excedentes e o reforço das organizações de produtores e cooperativas.

Para Óscar Quevedo, a discussão sobre o futuro da viticultura tem de partir também de uma realidade económica simples, a oferta não pode crescer indefinidamente quando o consumo está a diminuir.

“Quem produz esquece que quanto mais produzir, menos receberá pelo seu produto. Acho que falta entendimento económico, deve haver um equilíbrio entre a oferta e a procura, e o Douro não se soube adaptar produzindo menos. É por aqui que passa a solução, reduzir a produção para aumentar o valor da uva.”

O produtor considera que o problema já não é apenas regional. “Chagamos a 2026 e há uma forte retração do consumo de vinho, mesmo a nível internacional, e uma sobrelotação de stocks de vinho em todas as regiões do mundo.”

A redução da vinha, defende, deve ser encarada com cautela e, sobretudo, de forma voluntária. “O arranque de vinha deve ser sempre algo voluntário, mas podemos usar incentivos para a reconversão, por exemplo, para tornar esta solução mais apetecível.”

E aponta ainda outra possibilidade, “há também uma proposta que me parece interessante que passa pela redução do volume total de produção, sem haver perda do quantitativo de benefício.”

Uma viticultura que precisa de se reinventar

A discussão não é, porém, apenas sobre números de produção. É também sobre quem continuará a trabalhar as vinhas do Douro.

Óscar Quevedo considera que o modelo tradicional de pequena viticultura familiar enfrenta uma mudança inevitável.

“A economia agrícola que temos no Douro não é de subsistência, é romântica, é suportada em grande parte por aquela pessoa que tem o seu emprego e ao fim de semana trata da sua pequena vinha. Do ponto de vista do marketing, esta história é bonita, mas não gera rendimento, é algo que é finito.”

E deixa uma reflexão sobre o futuro geracional: “Um jovem de 20 anos não terá a mesma entrega que tem o seu avô. Temos de estar preparados para esta mudança.”

A empresa de Quevedo, com 104 hectares, transforma toda a sua produção em vinho de marca própria, tendo a exportação como principal canal de vendas e chegando a cerca de 40 países. Cerca de 20% da produção é já feita em modo biológico. A empresa compra ainda algumas uvas a produtores da zona de São João da Pesqueira para compensar falhas de produção.

O seu percurso é, de alguma forma, um exemplo da estratégia de valorização que o setor procura. O vinho é produzido, engarrafado e comercializado pela própria empresa, reduzindo a dependência da simples venda da uva.

Justina Teixeira

Em Mesão Frio, Justina Teixeira vive uma realidade semelhante, embora por razões diferentes. A boa resposta do mercado levou a quinta a comprar, este ano, pela primeira vez, uvas a outro produtor da região.

“Felizmente estamos a vender muito bem e o nosso Busto Branco Colheita esgota sempre. Para se ter uma ideia, começamos a comercializar em maio deste ano e chegados agora a agosto já está esgotado, por isso decidimos aumentar um pouco a produção.”

A quinta aumentou também a quantidade destinada a vinho base espumante e estima produzir, da vindima de 2026, “cerca de 12 mil garrafas que ficarão em estágio”. Excluindo o quantitativo de benefício, “a estimativa aponta para cerca de 35 mil litros de vinho produzidos”.

São exemplos diferentes de uma mesma questão, num mercado mais exigente, a capacidade de transformar a uva em produto final e encontrar consumidores pode fazer toda a diferença.

Na Real Companhia Velha, Rui Soares confirma que o problema do escoamento continua a ser um dos grandes desafios.

“De uma forma geral a região está satisfeita com quantidade e qualidade. Há o grande problema com a colocação da uva, essa situação não podemos fugir. É o grande desafio que temos para resolver.”

A empresa mantém a compra de uvas a fornecedores tradicionais, embora não esteja a aumentar esse universo. “Em boa verdade, com a nossa produção própria e os stocks existentes não precisaríamos comprar uvas, mas temos alguma responsabilidade social, e mesmo histórica, na região e no setor, por isso temos sempre atenção aos nossos fornecedores, não podemos abandoná-los de repente”, explica.

E fora do Douro, a mesma vindima adiantada

O adiantamento da vindima não é uma realidade exclusiva do Douro. Na vizinha Região Demarcada de Távora-Varosa, os primeiros sinais apontam igualmente para uma campanha antecipada, embora com diferenças entre propriedades e castas.

Miguel Cerveira, produtor dos Vinhos Antolice e consultor dos Vinhos Família Hehn, começou este ano a vindimar apenas um dia mais cedo na quinta onde presta consultoria, mas nas suas próprias vinhas o avanço chega a cerca de 15 dias.

Miguel Cerveira

“Este ano notamos que está tudo mais adiantado”, explica. “As minhas vinhas, de onde retiro as uvas para os vinhos Antolice, nota-se um adiantamento da vindima em cerca de 15 dias. Em alguns locais temos mesmo os tintos mais adiantados que os brancos.”

A situação, acrescenta, não é exclusiva do interior norte. “No Alentejo as coisas também estão adiantadas, é geral. É uma realidade para a qual temos de nos habituar.”

Em Távora-Varosa, a estimativa é de um aumento de produção na ordem dos 10% a 15%, num ano marcado por uma boa disponibilidade de água. Também os primeiros mostos apresentam bons indicadores de equilíbrio entre acidez e pH. “Se nada mudar até ao final da vindima, a perspetiva é que será um ano de bons vinhos aqui em Távora-Varosa.”

É uma realidade que merece, contudo, ser lida separadamente da do Douro. Embora geograficamente próximas e sujeitas a algumas tendências meteorológicas comuns, Távora-Varosa e Douro são regiões vitivinícolas distintas, com estruturas produtivas, denominações e dinâmicas de mercado próprias.

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