Reportagem Sociedade Tarouca Vila Real

Como se passa o Natal no seio das instituições sociais

[caption id="attachment_3024" align="alignleft" width="300"]Grupo de colaboradoras do Lar de Idosos da Santa Casa da Misericórdia de Tarouca na Festa de Natal da instituição / Foto: Salomé Ferreira Grupo de colaboradoras do Lar de Idosos da Santa Casa da Misericórdia de Tarouca na Festa de Natal da instituição / Foto: Salomé Ferreira[/caption] União. Afeto. Solidariedade. Paz. Esperança e amor. Estas são algumas das palavras que estão associadas ao Natal, que é, por excelência, a festa da Família. Mas nem sempre a Família de sangue partilha estes dias com as pessoas que estão institucionalizadas. É por isso que, nestas alturas, quem vive em instituições sente ainda mais esta como a sua casa e quem lá trabalha como a sua Família. Nesta reportagem, o VivaDouro foi perceber como se passa o natal no Lar de Idosos Nossa Senhora do Socorro, em Tarouca e no Lar Florinhas de Neve, em Vila Real, destinado a raparigas entre os três e os 10 anos. O calendário marca o dia 17 de dezembro. Falta cerca de uma semana para o Natal. Lá fora, o termómetro regista baixas temperaturas, típicas da época. O ambiente que se vive dentro do Lar de Idosos da Santa Casa da Misericórdia de Tarouca contrasta com o frio sentido na rua. É o dia da festa de Natal da instituição. “Um dia muito divertido, que exige uma preparação exaustiva mas é ao mesmo tempo muito gratificante”, afirma Patrícia Ribeiro, animadora sociocultural da instituição e quem dirigiu a preparação da festa. Na sala onde se vai realizar o espetáculo, os idosos já se perfilam nos melhores lugares para assistirem às mais de 15 peças preparadas durante semanas para os entreter e “mimar” nesta quadra natalícia. [caption id="attachment_3018" align="alignleft" width="300"]Maria Adélia Rosário, utente do Lar de Idosos da Santa Casa da Misericórdia de Tarouca / Foto: Salomé Ferreira Maria Adélia Rosário, utente do Lar de Idosos da Santa Casa da Misericórdia de Tarouca / Foto: Salomé Ferreira[/caption] Ao fundo da sala, sentada num cadeirão, encontra-se Maria Adélia Rosário, 86 anos, a trocar conversas com Maria Idalina Correia, 70 anos, sentada ao seu lado enquanto esperam pelo início do entretenimento. “De manhã já tivemos a missa e o almoço de natal”, explica ao VivaDouro Maria Adélia Rosário. “O Natal aqui é diferente das nossas casas, mas já sinto esta como a minha segunda família, não tenho cá os meus filhos, estão os três emigrados”, revela a utente. [caption id="attachment_3026" align="alignleft" width="300"]Maria Idalina Correia, utente do Lar de Idosos/ Foto: Salomé Ferreira Maria Idalina Correia, utente do Lar de Idosos/ Foto: Salomé Ferreira[/caption] “O Natal aqui é muito divertido, já temos amigas e as empregadas são muito boas para nós”, completa Maria Idalina Correia. Rui Raimundo, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Tarouca, sublinha que “estas pessoas não estão no seu ambiente familiar mas procuramos criar as condições para que eles se sintam o melhor possível. Tentamos criar este clima de Família, sabemos que não é conseguido na totalidade mas fazemos tudo para que isso possa acontecer”, revela ao VivaDouro. [caption id="attachment_3023" align="alignleft" width="300"]Na foto: Duarte Morais (Vice-Provedor), Rui Raimundo (Provedor) e Sandra Magalhães (Diretora Técnica), do Lar da Santa Casa da Misericórdia de Tarouca / Foto: Salomé Ferreira Na foto: Duarte Morais (Vice-Provedor), Rui Raimundo (Provedor) e Sandra Magalhães (Diretora Técnica), do Lar da Santa Casa da Misericórdia de Tarouca / Foto: Salomé Ferreira[/caption] “A família deles somos todos nós, essa é a nossa obrigação. O Natal é hoje e todos os dias”, realça. Para o provedor, “união” é a palavra de ordem não só nestes dias mas também ao longo do ano. E é realmente a união entre as várias pessoas do Lar de Idosos que faz com que a Festa de Natal da instituição seja uma realidade, uma vez que existe uma grande envolvência de todas as partes. “Os funcionários, para além das horas normais, que é um trabalho árduo e difícil, fazem mais horas, durante semanas, para conseguirem apresentar estes momentos de diversão que têm muito valor. Toda a gente participa nesta festa, há uma envolvência muito grande”, explica Rui Raimundo. Assim, estão envolvidas mais de 50 pessoas na preparação da Festa de Natal da Instituição, desde vários colaboradores, voluntários e utentes. Paralela à sala onde se vão realizar os espetáculos, está a sala onde se encontram vários dos colaboradores da instituição a vestir a pele das personagens que vão interpretar nas diferentes apresentações. Vestida para atuar no “Rancho” interpretado pelas funcionárias, Carminda Morgado revela que participa na festa “todos os anos” e se sente “muito orgulhosa com isso”. “É muito bom passar aqui o Natal, a relação é muito familiar, gosto muito do que faço e sinto-me muito feliz nesta instituição”, acrescenta a colaboradora. Do outro lado da sala, há espera para entrar em palco está Célia Eusébio, funcionária do Lar há 15 anos. “Nós vivemos muito o Natal, vivemos com os idosos tanto a alegria como a tristeza. Nestes dias é quando eles precisam mais de nós porque muitos a família não vem e somos nós a Família deles”, afirma Célia Eusébio. Sandra Eusébio, colaboradora há 24 anos, realça: “somos uma segunda família para eles. Este dia é dia de festa e eles animam-se com as palhaçadas que a gente faz”, explica ao VivaDouro. [caption id="attachment_3022" align="alignleft" width="300"]A alegria era contagiante na Festa de Natal no Lar de Idosos/ Foto: Salomé Ferreira A alegria era contagiante na Festa de Natal no Lar de Idosos/ Foto: Salomé Ferreira[/caption] Do outro lado das cortinas que tapam o palco os idosos esperam ansiosos pelo início do entretenimento. Quando começa a atuação do “Rancho Folclórico”, interpretado por várias funcionárias, a alegria nos rostos dos utentes é visível. [caption id="attachment_3021" align="alignleft" width="300"]Os idosos participaram ativamente na Festa de Natal da instituição / Foto: Salomé Ferreira Os idosos participaram ativamente na Festa de Natal da instituição / Foto: Salomé Ferreira[/caption] Entre gargalhadas e sorrisos mais tímidos, a tarde prosseguiu com a interpretação das várias peças programadas. O dia da Festa de Natal na instituição acaba por ser mais festivo do que a Consoada, no dia 24 de dezembro, uma vez que é na Festa que se reúnem todas as pessoas envolvidas na instituição e demais entidades locais. Na noite de Consoada o tradicional bacalhau é rei à mesa do Lar de Idosos da Santa Casa da Misericórdia de Tarouca, tal como na maior parte das casas portuguesas. Mas também não faltam os doces típicos da época. “A consoada também é muito bonita, há alguns que vão para casa e outros ficam cá. Fazemos uma mesa bonita como se estivessem em casa”, explica Célia Eusébio, funcionária da instituição. “Alguns familiares vêm cá busca-los mas, infelizmente, há muitos que ainda ficam aqui. Temos muito utentes acamados e cadeiras de rodas, autónomos são muito poucos”, revela Rui Raimundo, ao sublinhar que “faz questão” de iniciar a noite de Consoada com os utentes que ficam na instituição neste dia. [caption id="attachment_3020" align="alignleft" width="300"]Grupo de meninas do Lar Florinhas de Neve com Diretora Técnica, Professora e Colaboradora / Foto: Salomé Ferreira Grupo de meninas do Lar Florinhas de Neve com Diretora Técnica, Professora e Colaboradora / Foto: Salomé Ferreira[/caption] Diversão e união são as palavras de ordem no Natal das Florinhas de Neve No Lar Feminino Florinhas de Neve em Vila Real a realidade é idêntica à vivida no Lar de Idosos da Santa Casa da Misericórdia de Tarouca. Toda a equipa que trabalha na instituição acaba por ser a “verdadeira” Família destas crianças e jovens que vêm nesta estrutura a sua casa. “Aqui na instituição o Natal vive-se da mesma forma do que em qualquer sítio, tentamos que seja o mais parecido possível como se passa numa casa”, explica ao VivaDouro Rita Lisboa, diretora técnica da instituição que alberga cerca de 43 meninas até aos 22 anos. Desta forma, a Consoada acaba por ser idêntica à maior parte das famílias portuguesas. “Nesse dia juntamos as mesas todas do refeitório e passamos mais tempo à mesa, uma vez que diariamente a refeição dura cerca de 30 minutos”, conta Maria Figueiredo (nome fictício), uma das meninas que vive no Lar Florinhas de Neve. Sendo que “as meninas mais velhas ajudam na confeção de alguns pratos da consoada”, explica Eduarda Fraga, colaboradora, ao sublinhar a entreajuda vivida na instituição. “Depois disso fazemos jogos, vimos filmes e no fim da noite fazemos um jogo para encontrar várias pistas pela casa que nos levam até aos presentes”, acrescenta a jovem de 20 anos que passa praticamente todos os natais na instituição. Até ao momento, Rita Lisboa calcula que cerca de 18 meninas vão passar o Natal na instituição, sendo que as restantes vão para familiares ou famílias de acolhimento. Joana Matias (nome fictício), outra das meninas a residir na instituição, tem expectativa de ir passar o Natal a casa da tia este ano, estando apenas à espera de autorização. No entanto, a jovem de 15 anos gosta de “estar nos dois sítios”. “A última vez que passei aqui o Natal foi há dois anos, tenho ido para casa da minha tia mas também gosto de estar na instituição, é aqui que estou habituada a estar, é onde estou o ano inteiro, esta é a minha família”, afirma Joana Matias. Rita Lisboa, Diretora Técnica, confessa que “ao início elas sentem aquela expectativa de quem é que vai passar o Natal para a família, algumas já têm a noção que não têm para onde ir, mas eu acho que há sempre aquela esperança de que alguém possa vir”, explica. “No entanto acho que há meninas que já lidam muito bem com isso”, acrescentou. A Diretora Técnica explica ainda que “há pessoas que vêm aqui e pedem para levar meninas na altura do Natal e elas não querem ir porque não conhecem as pessoas e não se sentem bem, preferem ficar aqui porque esta é a família delas”, afirma.

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